
12º Encontro Modos
O lugar da obra: interseções e diálogos
10 a 12 de setembro de 2025
Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia – Salão Nobre
Salvador/BA
Apresentação
As disputas em torno de como compreender a obra de arte têm produzido litígios, parcerias e alianças de toda ordem. Simone Weil disse que toda obra de arte precisa ser percebida isoladamente, pois cria em seu entorno um vazio; ela, a obra, tangencia o racional pela via das sensações. Em sentido oposto, Roberto Longhi nos adverte de que a obra nunca está só, pois está sempre em relação (ele completa, “pelo menos em relação a outra obra de arte”). Já Adorno, numa aposta hegeliana, indica que toda obra tende à verdade, portanto, à autodestruição. Destruídas estão todas as obras que se transformam em túmulos nos museus na conhecida provocação de Paul Valéry. No oposto, como projeção de um sentimento vital, Wilhelm Worringer lembra que a obra se constitui no gozo estético, centrado em si mesmo. Já Marcel Proust considera que “não somos de modo algum livres diante da obra de arte”, pois diante delas não fazemos o que queremos, somos impelidos a descobrir nelas o que somos. Ou seja, muitas linhas foram escritas sobre a obra-prima, a obra total, a obra única, a falsa obra, a obra ordinária, a obra aberta, a multiplicação da obra de arte, a obra ausente, seu preço e apreço… enfim, a lista é exaustiva e sempre fadada à incompletude.
Hoje somos conscientes de que a obra de arte é capaz de desmontar ideias estabelecidas; ela pode quebrar hierarquias e perturbar as referências de um sujeito ou de toda uma comunidade. Por meio de atalhos, a obra pode nos conduzir até soluções novas, inesperadas, convincentes ou inapropriadas. Da mesma forma, sem ilusões, sabemos que o status extraordinário conferido à obra de arte desde os oitocentos é, em parte, uma consequência do mito romântico do artista como o produtor/criador mais altamente especializado – com efeito, o único. Portanto, até recentemente uma obra tinha seu valor mensurado pela sua capacidade de exprimir um ideal de perfeição, uma subjetividade singular, a índole de um povo, os interesses de uma classe, o humano em suas relações com a vida ou com a ideologia da modernidade, geralmente estritamente ocidental. Na atualidade, os desafios são outros.
Questionar a intenção do artista não basta. Ante à obra de arte, o espectador, esse sujeito constantemente deslocado, se pergunta: o que o artista quis transmitir? O que na obra resta da subjetividade do artista? Essas perguntas, as quais, não raro, fazem o caminho inverso da obra de arte, buscando na intenção do artista sua razão fim, podem esclarecer ou eclipsar as dúvidas lançadas em torno do tema. Lembrando que uma obra de arte não repete mecanicamente as virtudes nem os vícios de seu autor. Decerto, aprendemos a nos curvar humildemente à inevidência das obras. E a aceitar que somos nós, os espectadores, que cultivamos os lugares da insatisfação próprios do desejo, que os preenchemos de significados com os recursos de que dispomos. Em nosso caso, o amplo campo dos modelos interpretativos, das diferentes teorias e historiografias da arte. No 12º Encontro do Grupo MODOS, convidamos pesquisadores dedicados às artes visuais a se juntar aos membros do grupo para apresentar, interpretar, contextualizar OBRAS DE ARTE. Obras envoltas em seus próprios mistérios. Obras apreendidas pelos jogos curatoriais. Obras atravessadas por diferentes pedagogias de compreensão. Obras delineadas nos limites patrimoniais. Obras capturadas pelas tramas biográficas de seus criadores. Obras contidas em coleções, que circulam entre nós e por meio de nós. Propomos, assim, um encontro com OBRAS capazes de produzir sobre si mesmas perguntas fundamentais. Prontos a reformular as perguntas às quais acreditávamos haver respondido há muito tempo, a buscar conhecer as intersecções e os diálogos que operam a partir e sobre a obra.
Programação
10.09.2025 – Quarta-feira
14h – Abertura do encontro
14h30 – Palestra: Pomares encantados: uma língua, um barão e a história da arte diante do Outro – Emerson Dionisio de Oliveira (UnB)
14h50 – Debate
15h – Palestra: Entremeios do visto e do imaginado em Emma Valle – Luiz Alberto Ribeiro Freire (UFBA)
15h20 – Debate
15h30 – Intervalo
15h50 – Palestra: Onde a obra encosta: o acúmulo de escombros em “Chão-pão” de Nuno Ramos – Luiz Claudio da Costa (UERJ)
16h10 – Debate
16h20 – Conferência: Duas Bahias: Rubem Valentim e Carybé – Dilson Rodrigues Midlej (UFBA)
16h50 – Debate
17h05 – Visita à exposição na Galeria Cañizares – UFBA
11.09.2025 – Quinta-feira
14h – Conferência: O desafio de propor uma nova museografia para “Mãe Preta” de Lucílio de Albuquerque: um exercício de reparação museal no Museu de Arte da Bahia – Joseania Miranda Freitas (UFBA)
14h30 – Debate
14h45 – Palestra: Entre a rua e a tela: “O Vidigal” de Firmino Monteiro e a cena popular carioca no século XIX – Ana Tavares Cavalcanti (UFRJ)
15h05 Debate
15h15 Intervalo
15h35 – Palestra: Sem tirar nem por: arte, corpo e três colares de cerâmica de Hilda Goltz – Marize Malta (UFRJ)
15h55 – Debate
16h05 – Conferência: Materialidades: os têxteis como lugar de fala – Luciana B. M. Valio (FURG)
16h35 – Debate
12.09.2025 – Sexta-feira
14h – Conferência: Percursos do adire iorubá – arte têxtil e desdobramentos – Emi Koide (UFRB)
14h30 – Debate
14h45 – Palestra: Não ultrapasse: o desafio museológico da arte efêmera e a obra Trespass de Carlos Asp – Ana Maria Albani de Carvalho (UFRGS)
15h05 – Debate
15h15 – Intervalo
15h35 – Palestra: Entre montes de feno, caixas e objetos: Bernardo Salcedo e o circuito artístico latino-americano – Maria de Fátima Morethy Couto (Unicamp)
15h55 – Debate
16h05 – Conferência: “Baía, Bahia dia a dia de todos os santos” de Eriel Araújo: a recriação de uma obra efêmera – Anna Paula da Silva (UFBA)
16h35 Debate
16h50 Encerramento
13.09.2025 – Sábado
10h – Visita ao ateliê de J. Cunha ou ao Acervo da Laje
Expediente
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
Reitor
Paulo César Miguez de Oliveira
Pró-Reitor de Extensão
Guilherme Bertissolo
Diretor da Escola de Belas Artes
Paulo Roberto Ferreira Oliveira
Coordenador do Programa Pós-Graduação em Artes Visuais
Dilson Rodrigues Midlej
Organização
Luiz Alberto Ribeiro Freire (UFBA)
Luciana B. M. Valio (FURG)
Realização: Grupo Modos – História da arte: modos de ver, exibir e compreender
